domingo, 21 de abril de 2013

O Efeito Geldof

Em 29 de Janeiro de 1979, uma rapariga 16 anos, de seu nome Brenda Ann Spencer, assassinou dois professores e feriu vários professores e alunos, em San Diego, Califórnia, com a carabina que o pai lhe oferecera pelo Natal. Comentando o seu acto, revelou ter-se divertido bastante ao alvejar os colegas que «pareciam uma manada de vacas ali parada» e que «tinha sido tão fácil como alvejar patos num lago» - respostas que revelam alguma coisa sobre a natureza da menina em questão.

Acerca das motivações do crime, Brenda respondeu: 'I don't like Mondays. This livens up the day'.

Ou seja: «Não gosto das segundas-feiras. Isto alegra-me o dia»

Bob Geldof, então frontman da banda new-wave  The Boomtown Rats, compôs esta canção sobre o episódio:




Brenda entrou para a cultura popular como uma espécie de mártir das segundas-feiras, alguém que teve a «coragem» de «alvejar o próprio dia da semana», segundo a veia poética de Bob.

Sobre as vítimas, as inocentes «vacas» que foram os seus alvos, os «patos no lago» que tanto  a divertiram, pouco ou nenhum interesse houve. 

O mesmo se assiste agora em relação aos irmãos Tsarnaev, suspeitos dos atentados na Maratona de Boston, que estão a ser objecto de uma campanha de branqueamento, e se possível sacralização, pelos media de todo o mundo.

Também foi a uma segunda-feira. E os alvos foram maioritariamente norte-americanos, o que para muito boa gente blinda sentimentos de compaixão.

Desde as primeiras horas do atentado em Boston que se assistiu a uma cómico-trágica escalada de posições por parte das pessoas politicamente correctas do costume. As coisas têm evoluído mais ou menos assim:

1º - «Não foi atentado!»

Perante as evidências todas de que tinha sido um atentado, apressavam-se a negá-lo, enquanto não fosse «provado». Já pairava o medo de que as evidências se concretizassem. 

2º - «Se foi atentado, não foi de terroristas islâmicos!»

Dos EUA, minutos após o acto terrorista, o ex-ministro da Defesa Nuno Severiano Teixeira dizia desassombradamente que estes atentados traziam a marca do modus-operandi do fundamentalismo islâmico. Em estúdio, Nuno Rogeiro verberou-o duramente. Certa opinião pública não poderia estar mais de acordo. Entretanto, as panelas de pressão cheias de rolamentos lançavam por terra a «tese» do não atentado...

3º - «Foi acto de grupos supremacistas brancos norte-americanos!»

Aqui, curiosamente, já havia certezas, apesar de nada ainda ter sido tornado público. E o saudita que foi preso logo a seguir, passou de suspeito a testemunha...

4º - «É obra da CIA!»

Quando foram identificados os dois suspeitos, quando foram divulgadas as suas fotos e os seus vídeos a colocarem as mochilas no local dos rebentamentos, a versão era de que «pessoas com mochilas há muitas», e que estes dois irmãos, com simpatias públicas pelo terrorismo islâmico, foram vítimas de uma armadilha da CIA...


5º - «Não teve nada a ver com radicalismo islâmico!»

Entretanto a ligação dos irmãos Tsarnaev aos atentados tornou-se difícil de negar. Passou-se então ao passo seguinte: negar as evidências. As investigações policiais de que foram alvo, os apelos jihadistas, as ligações a organizações terroristas, tudo foi escamoteado.

Mas este ainda não é o último estágio da interpretação politicamente correcta da tragédia de Boston...


6º - «A culpa é dos Estados Unidos!»

Este é o ponto em que estamos agora. A circunstância de os irmãos se terem «radicalizado» já é indesmentível. A maior parte dos media diz que se «radicalizaram» mas não diz em quê, aliás...

Agora trata-se de verificar como é que os Estados Unidos foram culpados. Que os Estados Unidos, e o Ocidente em geral, são culpados, isso já se sabe à partida antes de qualquer coisa acontecer. Trata-se simplesmente de encontrar a explicação para a conclusão pré-existente e inquestionável.


E então porque é que a culpa é dos Estados Unidos?


Fácil! Basta pegar em algumas opiniões e declarações dos dois terroristas, que cometeram um atentado bombista, mataram e estropiaram gente, resistiram à Polícia com armas de fogo e bombas, e mataram um polícia!

Faz-se tábua rasa das simpatias radicais dos dois, e o que conta é que: 

- um deles se sentia deslocado na sociedade norte-americana, e que ambos estavam de alguma forma descontentes com o modo de vida Ocidental, em que cada pessoa tem a liberdade de ter as suas ideias e a sua conduta social. Os irmãos sentiam-se mais inclinados a uma vida de uma certa austeridade religiosa e contenção de hábitos. 

Vai daí, e em vez de emigrarem para paragens mais a seu contento, metem duas bombas, e a culpa é da «sociedade de consumo, do capitalismo decadente, da perda de valores, da confusão da vida moderna, e da política externa norte-americana»!

Não é só em Portugal e não é apenas nos media que há uma proibição social (às vezes oficial) de investigar o processo pelo qual estes «jovens» se «radicalizam». Mesmo que a integridade física e a vida de pessoas esteja em risco, mesmo que a ordem pública e a soberania nacional esteja em risco, o politicamente correcto proíbe que se questione certas ideologias. Ficamos então com a versão dos dois irmãos a quem o tenebroso American way of life «obrigou» a fabricar, colocar e detonar bombas à chegada da Maratona de Boston!

As vítimas serão (já estão) relegadas ao esquecimento. Os dois terroristas, que continuam a despertar ondas mundiais de simpatia, estão seguramente a caminho dos altares da nova religião. Não nos admira que daqui a uns anos andem aí em t-shirts. Para já, aguarda-se uma canção!

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