domingo, 7 de abril de 2013

'Entre a liberdade e a escravidão' - Bernardo Sorj





28.03.2012 - por Bernardo SorjPessach 5772/2012 

Entre a liberdade e a escravidão


E toda a congregação dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e Aarão no deserto, e disse aos filhos de Israel: 'Mais valia tivéssemos morrido pela mão do Senhor na terra do Egipto, quando estávamos sentados junto às panelas de carne, quando comíamos pão até querer. Trouxeram-nos para este deserto para morrermos aqui de fome.' (Êxodo 16) 


Porque a vida é uma luta constante entre a liberdade e a escravidão, entre a liberdade que nos torna insegura, e o desejo de segurança que limita a nossa liberdade, a Páscoa nos lembra que a vida é uma viagem:

Entre o medo do desconhecido. 

E a coragem de abrir-se a novas ideias e experiências.

Entre as expectativas dos outros. 

E o agir sobre como consideramos certo ou errado.

Entre a insegurança que nos permite reconhecer as nossas limitações.

 E a ironia que nos permite rir da nossa maneira de ser.

Entre a fixação sobre o trauma. 

E a sua superação.

Entre as janelas externas. 

E a vida interior.

Entre reclamar. 

E agir.

Entre o dogmatismo. 

E abertura às opiniões dos outros.

Entre ser. 

E ter.

Entre contemplar. 

E possuir. 

Entre querer tudo. 
E estar satisfeito com o que se tem. 

Entre o supérfluo. 
E o essencial. 

Entre a imposição. 
E o diálogo. 

Entre o discurso. 
E o ouvir. 

Entre um passado que nos oprime. 
E um passado nos ensina. 

Na Páscoa, nós aprendemos que os opressores têm delírios de omnipotência e de imposição da sua vontade, que anseiam por dominar e controlar os outros para satisfazer os  seus desejos. Mas os seres humanos são finitos e mortais.

E porque somos finitos e mortais, 

Vivemos na incerteza.

E porque somos finitos e mortais, 

Temos medos, inseguranças e necessidades emocionais.

E porque somos finitos e mortais, 

O outro é uma fonte de aprendizagem e de apoio.

Devemos sempre lembrar sempre que, como judeus, a Páscoa nos ensina:


Que fomos perseguidos e nunca devemos perseguir.
 
Que fomos  humilhados e nunca devemos humilhar. 
Que fomos estigmatizados e não devemos estigmatizar. 
Que fomos oprimidos e nunca devemos oprimir.
Que fomos confinados a guetos e ninguém deve viver em favelas.
Que toda a escravidão acaba na luta pela liberdade.

Assim, na Páscoa, celebramos a nossa vontade de ser livres sem esconder os nossos medos, inseguranças e faltas, e afirmamos nossa vontade de amar, aprender, e os valores da liberdade e da justiça.


Shehejyanu, laz'man ve'higuianu ve'quimanau.

Que vivemos, nós existimos, que chegámos a este momento.

Bernardo Sorj
  

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