segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Rosh Hashana à Mesa

Alguns leitores e amigos gostaram do nosso post sobre o Ano Novo judaico. Por isso, resolvemos falar mais um pouco acerca do tema.

A Torá refere-se ao Ano Novo judaico como Yom Teruah, que significa "Dia de Soprar". Soprar o quê? O shofar, naturalmente.

As celebrações do Ano Novo judaico (Rosh Hashana) duram 10 dias, e são ocasião de reflectir sobre o ano que acaba, de reparar desavenças e de recitar slichot - orações de arrependimento. Muitos judeus vão a Jerusalém, a cidade sagrada do Judaísmo. Pode ver em directo o local mais sagrado da cidade mais sagrada aqui.

É tempo de perdão, arrependimento e renovação. Mas, como acontece cá em Portugal, no Natal, no Ano Novo, ou na Páscoa, os não religiosos e os que não ligam muito à religião, também participam na festa, porque se identificam com a tradição. E não há festa sem comida e bebida, em qualquer tradição.

Nos dois dias do Rosh Hashana os lares judeus enchem-se dos aromas dos pratos característicos da quadra. Os alimentos são consumidos em determinada ordem, e todos têm um significado especial, simbolizando as bênçãos que se pretende obter de Deus - sublinhamos para que não se pense que os judeus vêem propriedades mágicas na comida....

Devido à dispersão histórica, os costumes foram-se alterando, mas estas refeições incluem geralmente:

- Maçãs mergulhadas em mel, que se crê ser uma tradição oriunda dos judeus asquenazitas, os do leste da Europa. Nessas regiões, esta época é de maçãs, e a maçã cresce desprotegida de folhas, mais ou menos como os judeus praticantes, em terra estrangeira. Simbolizam o desejo de um ano doce.




- As romãs, que supostamente contêm 613 sementes, simbolizam os 613 mandamentos (mitzvot) que a Torá recomenda. São um dos "frutos da época" que se consomem tradicionalmente na segunda noite de celebrações. Israel é mencionado na Torá como produzindo boas romãs, o que pode ser constatado ainda hoje.



- Chalá, pão redondo, para simbolizar o ciclo anual e uma coroa, para coroar Deus, Rei do Universo. No Ano Novo, come-se este pão com mel. O mel a que a Bíblia faz referência ("Terra de leite e mel"), eram as tâmaras, ou uma pasta contendo frutos doces. Hoje é mais fácil encontrar mel verdadeiro. O mel lembra o labor das abelhas. Em algumas comunidades, o acompanhamento é açúcar e sal.



- O peixe nada em cardumes e não dorme. Simboliza abundância e constância no cumprimento da vontade Divina. 

- Carne da cabeça de peixe ou de carneiro, para "entrar de cabeça" no novo ano e em recordação do Deuterónimo 28:13, em que Deus promete fazer "cabeça e não cauda", de quem cumpra os Mandamentos. 


- As tâmaras são um dos alimentos que aparecem na mesa por associações de palavras. A palavra tâmara/tamri, também significa "consumir" ou "acabar". Comê-las expressa o desejo que a inimizade dos que nos querem mal se consuma e acabe.


- Feijão-frade, feijão-verde ou outro vegetal análogo, segundo a tradição local, por associação com a palavra hebraica para "crescer e multiplicar".

Estes são alguns dos alimentos mais em destaque na quadra. Variam bastante, consoante as comunidades - basta que nos lembremos da formidável diversidade de  pratos natalícios em Portugal e nos países de Língua oficial Portuguesa.



Seder é o nome que se dá a uma refeição ritual, em que os alimentos são comidos em determinada ordem e com determinado simbolismo. O prato contém a 'cábula'...

Depois do seder, e para "aconchegar o estômago", há quem ainda esteja muito capaz de comer umas "coisitas". Para acautelar a eventualidade, serve-se uma refeição abundante que pode incluir kugels (uma espécie de tarte), assados, vegetais, nas famílias asquenazitas; kebabs, arroz e saladas nas famílias sefarditas. E um doces. Talvez a lusitana preocupação com ter o estômago "aconchegado" seja uma influência judaica, quem sabe...

Em Israel, os festejos de Rosh Hashana são uma ocasião para unir as famílias e a nação, para estar mais perto de Deus, e para comer, naturalmente.


Os rapazes e as raparigas do IDF (Forças de Defesa de Israel) consumiram 15 toneladas de maçãs, 6 toneladas e meia de romãs, 60 toneladas de carne e peixe, 7800 garrafas de sumo e 9000 garrafas de refrigerante. Nesta época, é tudo à grande...

P.S. - Eu sei que tenho o terceiro e último post da "pimenta" para fazer. Mas agora que falei de comida, não vou falar da dita cuja. O que a gente gostava era de fazer sempre posts alegres, como este. One day...

2 comentários:

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