sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Os jornalistas e Israel - 2

"Embora a obsessão mundial com Israel seja um dado adquirido, ela é na verdade o resultado de decisões tomadas por seres humanos individuais em posições de responsabilidade, neste caso, jornalistas e editores."

Os jornalistas e Israel - 1


Uma repórter da TV faz uma transmissão em directo próximo da fronteira entre Gaza e Israel, quando começa um cessar-fogo de 24 horas, em 27 de Julho de 2014. (Ilia Yefimovich / Getty Images).

Guia de um "insider" para a história mais importante da Terra
Um ex-correspondente da AP explica como e por que os repórteres entendem Israel tão mal, e porque é que isso é tão importante
Por Matti Friedman
26 de Agosto de 2014
 
Quão importante é a história jornalística sobre Israel?

O número de jornalistas destacados é a melhor medida da importância de uma história para uma organização de notícias particular. Quando eu era correspondente da AP, a agência teve mais de 40 funcionários a cobrir os acontecimentos em Israel e nos territórios palestinos. Que era significativamente mais do que a equipa de notícias da AP tinha na China, na Rússia ou na Índia, ou em todos os 50 países da África sub-Saariana juntos. Era maior do que o número total de trabalhadores de notícias em todos os países onde as revoltas da "Primavera Árabe" estavam em erupção.
Para dar uma noção de escala: Antes da eclosão da guerra civil na Síria, a presença permanente da AP naquele país consistia de um único correspondente "freelancer"  aprovado pelo regime. Ou seja: os editores da AP acreditavam que a importância da Síria era 40 vezes menor que a de Israel.
Não pretendo estar aqui a peguilhar com a AP - acontece que a agência é representativa do comum das agências noticiosas, o que a torna útil como exemplo. Os grandes protagonistas no negócio do Jornalismo mundial são fiéis adeptos do "pensamento de grupo", e essa prática reflecte-se em todo o rebanho.

Definição Wikipédica, mas correcta: O "pensamento de grupo" é um tipo de pensamento exibido pelos membros de um grupo que tentam minimizar conflitos e chegar ao consenso sem testar, analisar e avaliar criticamente as ideias. Durante o pensamento de grupo, membros do mesmo grupo evitam promover pontos de vista fora da zona de conforto do pensamento consensual. Uma variedade de motivos para isto pode existir, tais como o desejo de evitar ser encarado como ridículo, ou o desejo de evitar perturbar ou irritar outros membros do grupo. O pensamento de grupo pode fazer com que grupos tomem decisões precipitadas e irracionais, onde dúvidas individuais são postas de lado, por medo de perturbar o equilíbrio colectivo. O termo é frequentemente usado em sentido pejorativo.

Os números do pessoal destacado em Israel diminuíram um pouco, desde que os levantamentos árabes começaram, mas continuam elevados. E quando Israel se inflama, como sucedeu neste Verão, os repórteres são muitas vezes destacados para a cobertura de conflitos mortais. Israel ainda supera quase tudo o resto.
O volume de cobertura de Imprensa que daí resulta, mesmo quando pouca coisa acontece, dá a este conflito uma proeminência em relação ao qual o seu custo humano real é absurdamente pequeno. Em todo o ano de 2013, por exemplo, o conflito israelo-palestiniano reivindicou 42 vidas, isto é, mais ou menos a taxa de homicídios mensal na cidade de Chicago.
Jerusalém, conhecida internacionalmente como uma cidade de conflito, tinha um pouco menos mortes violentas per capita no ano passado do que Portland, Oregon, uma das cidades mais seguras da América. Em contraste, em três anos, o conflito sírio já custou cerca de 190.000 vidas, ou cerca de 70.000 mais do que o número de pessoas que já morreram no conflito árabe-israelita desde que este começou, há um século.

Mais de 90% dos muçulmanos mortos no Médio Oriente desde 1948 foram mortos por outros muçulmanos. Somente 0,3% são terroristas que foram mortos pelas Forças de Defesa de Israel. No entanto, aos jornalistas só interessam os terroristas abatidos por Israel. Já para não mencionar que os civis israelitas abatidos pelos terroristas do Hamas & C.ia não interessam nada aos jornalistas.

As organizações da notícias, no entanto, decidiram que este conflito é mais importante do que, por exemplo, os mais de 1.600 mulheres assassinadas no Paquistão no ano passado  (271 depois de terem sido estupradas e 193 delas queimadas vivas); que é mais importante que o processo de obliteração doTibete pelo Partido Comunista Chinês; que é mais importante que a carnificina no Congo (mais de 5 milhões de mortos como de 2012) ou na República Centro-Africana; mais importante que as guerras da droga no México (número de mortos entre 2006 e 2012: 60,000); para não mencionarmos conflitos de que ninguém jamais ouviu falar, em cantos obscuros da Índia ou da Tailândia. As organizações de notícias acreditam que Israel é a história mais importante da Terra, ou quase.



CONTINUA

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