sexta-feira, 14 de março de 2014

"20% da população Ibérica descende de Judeus"




Quando publicámos  o nosso post Apelidos Judaicos - Confira usámos de um tom bem-disposto e leve - que é o que nos merecem estas questões "genéticas" - e usámos o mesmo tom para espicaçar amigavelmente os arrebatados cultores da "raça ariana", lembrando-lhes que muitos deles são descendentes muito directos do grupo humano que Hitler resolveu odiar acima de todos.

Na nossa visão universalista das coisas, não há cor de pele, ADN, tradição cultural, pertença nacional, religião, orientação política ou outra, que faça de alguém mais ou menos do que é. Cada um vale pelo seu carácter, pelas qualidades que tenta aperfeiçoar e pelos defeitos que tenta eliminar. Sentimo-nos irmãos de todos os seres humanos. 

Um leitor, na altura, comentou que, se os apelidos indicados fossem atestado de origem hebraica, então 90% da população portuguesa teria vindo lá da Terra Santa. Não é isso que a referida lista pretende dizer, e o artigo é bem claro quando explica que para se chegar a conclusões é preciso pesquisar a genealogia (é indicada bibliografia), e que os apelidos em questão são usados por judeus e descendentes, mas "não de forma exclusiva".

Nós, os portugueses, somos dos povos mais miscigenados do mundo. É particularmente ridículo (além de eticamente deplorável), que embarquemos em modas racistas-xenófobas. Um dos patrimónios de que podemos orgulhar-nos é o de sabermos lidar com toda a gente sem preconceitos. A nossa diáspora, antiga e contemporânea, confirma a nossa adaptabilidade, a nossa afabilidade, o nosso jeito natural para fazer amigos de todas as "cores". 

Nesta alegre Primavera que desponta, passo pelas ruas e vejo casais de gente portuguesa e gente africana, gente portuguesa e gente do leste da Europa, e outras combinações, enlevados, empurrando carrinhos de bebé sob a folhagem dos parques. Que ridículo seria, se alguma consideração religiosa, "racial", nacional ou outra, obstasse ao livre curso do amor... Claro, cada um é livre de ser contra essas "misturas". Está no seu direito. Mas não está no direito de impedir os outros de escutarem a voz do coração por sobre a cacofonia do preconceito. O racismo, a xenofobia, o ódio, são cancros a combater.

No mesmo post, um leitor deixou este comentário:
Interessante. Fez-me lembrar um texto do José Milhazes: «já tive várias vezes a oportunidade de sentir na pele o que significa ser parecido a um judeu.
...eu e outro camarada da TSF... estávamos no centro de Moscovo para acompanhar uma manifestação... Fomos rapidamente rodeados por um grupo de manifestantes que, espumando raiva e ódio, gritavam: "Vão para Israel!", "Jdi!" (palavra russa ofensiva para definir judeus).»
Texto completo aqui: http://darussia.blogspot.pt/2007/09/h-pessoas-que-no-tiram-lies-da-histria.html

Que estas tristes modas não cheguem cá, é o nosso desejo. Este artigo do NYT que a seguir traduzimos, o melhor que sabemos, não pretende ser prova ou contra-prova de coisa nenhuma. É para ser lido com espírito crítico (como tudo), e é o primeiro de uma pequenina selecção que fizemos:




Grupo de visitantes à porta da Sinagoga de Tomar
Estudo de DNA mostra 20 por cento da população tem ascendência judaica ibérica
Por Nicholas Wade, New York Times
Quinta-feira, 4 Dezembro, 2008 
Espanha e Portugal têm uma história de Catolicismo fervoroso, mas ficou a saber-se agora que quase um terço da população tem uma herança genética não-cristã. Cerca de 20% da população actual da Península Ibérica tem ascendência judaica sefardita, e  no ADN de 11% da população está a assinatura do ADN mourisco, segundo os  relatórios de uma equipa de geneticistas. 
Estas assinaturas genéticas reflectem as conversões forçadas ao Cristianismo nos séculos XIV e XV, depois de os exércitos cristãos terem resgatado a Espanha do controle muçulmano.
A descoberta  põe em confronto duas visões muito diferentes da história espanhola: Uma sustenta que a civilização espanhola é católica, e todas as outras influências são estrangeiras, a outra que a Espanha foi enriquecida por três das suas culturas históricas - católica, judaica e muçulmana.

O estudo genético, com base numa análise do cromossoma Y, foi conduzido por uma equipa de biólogos liderada por Mark Jobling, da Universidade de Leicester, na Inglaterra, e por Francesc Calafell, da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona.

Os biólogos desenvolveram uma assinatura do cromossoma Y para os homens sefarditas, estudando comunidades judaicas sefarditas em lugares para onde os judeus migraram após terem sido expulsos da Espanha nos anos 1492-1496.
Os investigadores também caracterizaram os cromossomas Y do exército árabe e berbere que invadiu a Espanha em 711 AD, a partir de dados sobre as pessoas que vivem agora em Marrocos e Sahara Ocidental.
Após um período de tolerância, sob a dinastia árabe Umayyad, a Espanha entrou num longo período de intolerância religiosa, com as suas dinastias berberes muçulmanas forçando cristãos e judeus a converter-se ao Islão, e os cristãos, vitoriosos em seguida, expulsaram os judeus e os muçulmanos ou forçaram-nos à conversão.
O estudo genético, informou o American Journal of Human Genetics, indica que houve um alto nível de conversão entre os judeus.

Jonathan Ray, professor de estudos judaicos da Universidade de Georgetown, disse que
era de se esperar uma alta proporção de pessoas com ascendência sefardita.

"Os judeus formaram uma grande parte da população urbana até às grandes conversões", disse ele.

A análise genética é "muito atraente", disse Jane Gerber, especialista em História sefardita na Universidade da Cidade de Nova Iorque, e pesa contra os estudiosos que têm argumentado que havia muito poucas conversões de judeus ao Cristianismo.
Ray levantou a questão do que a evidência do DNA pode significar num nível pessoal. "Se por quatro gerações não tenho conhecimento do meu passado genético", disse: "como é que isso afecta a minha compreensão da minha própria pertença religiosa?"
Calafell, um dos autores do estudo, deparou-se com essa questão. O seu próprio cromossoma Y é provavelmente de ascendência sefardita - o teste não é definitivo para os indivíduos - e o seu apelido é de uma cidade na Catalunha; judeus em reconversão muitas vezes tomaram como apelidos nomes de lugares.
Os judeus estabeleceram-se em Espanha durante os primeiros anos do Império Romano. Os judeus sefarditas têm essa designação porque a palavra hebraica para a Espanha é Sepharad.

1 comentário:

  1. "Após um período de tolerância, sob a dinastia árabe Umayyad"

    Gostava que esta gente acertasse nos factos, para variar. A sociedade Omíada estava dividida em 4 classes: muçulmanos árabes, muçulmanos não-árabes, dhimmis e escravos. Embora pregassem que no islão todos os muçulmanos eram iguais, os árabes consideravam-se superiores aos muçulmanos não-árabes (quem conhece o islão sabe que as orações têm de ser feitas em arábico senão não contam), facto que levou a tensões sociais que resultaram na revolta Abássida, acabando com a deposição do califado Omíada no oriente e África. Os poucos sobreviventes da família real conseguiram fugir para a Península ibérica e continuaram a considerar-se califas. Ou seja, a suposta utopia ibérica que hoje em dia muçulmanos por todo o mundo tentam apresentar como um exemplo de colaboração entre cristãos, judeus e muçulmanos era considerada na altura como um estado muçulmano herético.

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